URB 2007
“A Diferença de Ronaldo Torquato”
Recorro (ou peço socorro) à metodologia de Charles Jencks para apresentar a obra-prima de Ronaldo Torquato.
Em suas urbs neo-modernas, Ronaldo Torquato elabora composições de espaços explodidos com pisos inclinados, denunciando distorções e anamorfismos.
Com rico repertório, em ornamentos tematizados e fractais, aponta à catacrese e ao apocalipse.
Estética grau zero, pelas mãos experientes, revela: tons de vacuidade, em absorções e texturas do vazio, em pigmentos.
O contexto urbano de Torquato é o lugar nenhum, o não extenso e a teoria do caos.
Fluxos e funções indeterminados entre formas e conteúdos não fidedignos.
Conjunto sublime, nada suave; em expressão artística deseja acusar a retórica redundante.
A interpenetração por massas variáveis vai, de surpresas bauhausianas à segunda máquina de extrema lógica, executando a circulação mecânica do poder.
A linearidade começa na construção da cidade exposta, no entorno, nas ruas, assim, perpassa revelando curiosas transgressões e, logo, invade com lentes agressivas os apartamentos e guetos para, finalmente, deslizar como lâmina –motosserra- ao lapidar o objeto escultural curvo dos nossos, contidos, sentimentos.
A transparência inconsolável, os lugares acidentais e a ambigüidade literal marcam a agonia (entre estilhaços e fraturas) na arquitetura das torres de vidro prateadas combinada às tecnologias em sépia de outrora.
É harmonia forçada de colapsos e colisões. Ronaldo, em URB 2007, mesmo descrente nas políticas urbanas, argumenta: ausência de métodos eficazes e mergulho em sistemas descontínuos.
Artista plástico singular e plural ergue a seguinte trilogia de sobrevivência: mandarim/cliente/profeta.
A semiótica no neo-moderno oferece os conceitos da dissociação, da decomposição e da descentralização nas leituras de Jencks.
Torquato rege tais conceitos com desprezo, humor e segurança, intelectualizando código privado, pró-metáfora restrita e traços da memória, que representam: anti-histórico e pró-histórico,
anti-simbólico e pró-simbólico.
Ronaldo Torquato é a diferença!
Paulo Igreja - arquiteto
Rio de Janeiro, 2007.